“Dissuasão avançada”: maior potência nuclear da UE anuncia expansão de arsenal

Da redação

“Quem quer ser livre deve ser temido. Quem quer ser temido deve ser forte”, afirmou Emmanuel Macron – Foto – Yoan Valat/AFP

AFrança, segunda maior economia da União Europeia e uma das maiores potências nucleares do bloco, anunciou uma importante mudança na sua doutrina militar em 2026. O país passa a adotar, agora, o princípio da “dissuasão avançada”, e prevê a ampliação de seu arsenal atômico a fim de alinhar-se às tendências geopolíticas internacionais. A mudança foi comunicada pelo presidente Emmanuel Macron durante um discurso realizado na base naval de Île Longue, na Bretanha, principal centro da força submarina nuclear francesa, no começo de março.

O novo posicionamento francês vem em resposta à expansão das capacidades militares dos países beligerantes no continente europeu, Rússia e Ucrânia, e à intensificação de guerras fora do eixo ocidental, com os ataques dos EUA ao Golfo Pérsico. Os países da União Europeia também têm anunciado, desde 2022, sucessivas expansões de gastos militares: é o caso da Alemanha, da própria França e até de países menores, como a Romênia, que integram a rede de influências da OTAN.

Macron disse, no discurso, que os “interesses vitais” da França agora incluem garantir a estabilidade da Europa a partir da dissuasão combinada, que integra as forças nucleares do país às dos seus aliados europeus, sem transferir controle das armas atômicas. Apesar de ser membro fundador da OTAN, a França não vai seguir o modelo de compartilhamento de arsenais nucleares em bases aliadas da Aliança, mas pretende manter controle absoluto sobre todas as decisões de uso e planejamento operacional dos equipamentos.

A iniciativa será baseada em mecanismos permanentes de consulta política e militar, incluindo grupos de coordenação sobre doutrina nuclear, gestão de escalada de conflitos e gestão de crises junto a seus parceiros europeus, que também devem participar dos exercícios nucleares do país como observadores ou colaboradores.

Uma das maiores novidades do discurso foi a possibilidade de deslocamento temporário de aeronaves francesas com capacidade nuclear para países aliados europeus durante crises. Isso pode envolver o envio de elementos das forças aéreas estratégicas para fora do território francês, embora as ogivas nucleares permaneçam de fora do discurso oficial.

Além da mudança doutrinária, Macron anunciou, ainda, que a França deve aumentar seu número de ogivas nucleares, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria. Mas as informações sobre o estoque nuclear deixarão de ser públicas, o que acende um alerta na comunidade internacional. Segundo a França, a não divulgação é uma estratégia de “opacidade calculada”, que aumenta a incerteza dos adversários sobre sua capacidade real de resposta nuclear para contribuir com a dissuasão.

Segundo estimativas independentes do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos (IIEE), a França tem cerca de 290 ogivas nucleares funcionais e é a quarta maior potência nuclear do mundo, atrás de Rússia, EUA e China. O reforço atual do arsenal francês deve incluir a modernização dos sistemas antimísseis — uma defesa contra a Rússia —, os sistemas de guerra antissubmarino e a coordenação estratégica entre Rússia e China.

A doutrina nuclear francesa sempre foi baseada na ideia de autonomia estratégica nacional, consolidada desde o governo de Charles de Gaulle, nos anos 1960. A chamada force de frappe foi concebida para garantir que a França pudesse responder sozinha a qualquer ameaça existencial, sem depender de Washington ou da OTAN.

Historicamente, Paris evitava integrar plenamente sua política nuclear à do Atlântico Norte. A França não participa, por exemplo, do Nuclear Planning Group da OTAN, órgão responsável pelo planejamento nuclear da aliança. A mudança atual continua a sinalizar essa independência em relação à aliança, mas a França demonstra querer colaborar de maneira coordenada com os membros do bloco europeu.

Apesar disso, o país continua disposto a apoiar a doutrina de não-proliferação nuclear acima de tudo, afirmou o ministro das Relações Internacionais francês, Jean-Noel Barrot, às Nações Unidas. Por isso, o país se compromete, segundo Barrot, a uma série de medidas para reduzir os riscos estratégicos de atividade nuclear; entre eles, “uma moratória para a produção de material físsil para armas nucleares, a entrada em vigor do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares e discussões sobre estabilidade estratégica” junto a países como o Reino Unido, que ocupa, junto à França, “uma situação radicalmente diferente da de outros Estados detentores de armas nucleares com arsenais desproporcionais”. Revista Forum.

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