Preconceito

“Ainda duvidam quando eu digo que sou professora”, diz 1º travesti da UFPI

04 de agosto de 2019

Da redação

 

Letícia Carolina Pereira do Nascimento tem 29 anos, faz doutorado em Pedagogia na Universidade Federal do Piauí, é professora de três disciplinas na instituição, orienta alunos para o TCC e tem um grupo quinzenal de estudos. Trabalha na UFPI das 8h às 18h, mas tem dia que vai até às 22h. Chega em casa e já começa a planejar as atividades do dia seguinte.

 

Fotos: Arquivo pessoal/Cidadeverde.com

 

Escreve artigos mensalmente para publicar em revistas e eventos, nacionais e internacionais, escreve capítulos de livros… Uma rotina frenética, típica da profissão. Mas, quando ela diz para alguém que é professora da UFPI, o retorno é um olhar de espanto.

“As pessoas duvidam, se espantam quando eu digo que sou professora. Até hoje, duvidam que nós possamos nos graduar, que eu possa ser professora. As pessoas questionam, não conseguem esconder o olhar de espanto, de surpresa. É como se eu não merecesse estar ali, como se a universidade não fosse para mim. Elas entendem a universidade como o lugar da norma”, afirma Letícia, que é a primeira travesti professora universitária do Piauí e, num futuro bem próximo, será a primeira travesti doutora do Estado.

Letícia desenhou o retrato da realidade das travestis, não só no Piauí, mas no Brasil como um todo. Ocupando um espaço privilegiado na sociedade, ela considera que a educação foi sua grande proteção contra a vulnerabilidade social.

“As travestis vivem nas ruas violências brutais, vivem a aniquilação da vida. Dessa grande vulnerabilidade eu não faço parte, a universidade me protegeu de violências brutais”, pondera.

Outro contexto

Letícia sempre teve uma família que a respeita e sempre se sentiu amada. Agarrou com unhas e dentes todas as oportunidades de estudo que lhe foram apresentadas. Aos 24 anos, terminou o mestrado.

Agora, está chegando ao topo da carreira de professora, mas ainda assim, sente medo. Esse medo de causar confusões pelo simples fato de usar o banheiro feminino ou de ser violentada em alguns lugares restringe seus passos e a faz evitar sair sozinha.

“Costumo andar com amigas, amigos. Para me blindar, não pego ônibus, só para viajar, tenho medo de ser vítima. É uma violência psicológica. Não tenho coragem de andar no Centro sozinha. Se eu sentir que é perigoso, não consigo ir, me pego com medo de fazer algumas coisas e ser agredida. Eu posso evitar esses ambientes, mas algumas pessoas não podem”, lamenta ela.

Letícia diz que na universidade usa o banheiro dos funcionários e o das alunas. “No máximo, vejo uma cara de espanto”, conta. Mas, em alguns locais, como as rodoviárias, ela evita ir ao banheiro a todo custo e quando não temo como não ir, acaba usando com muita pressa e receio. “Eu não sei quem está lá. Temo ser expulsa ou ter que ficar me explicando. Às vezes tenho vontade de ir ao banheiro e não vou, prefiro usar o do ônibus que é unissex. É por causa disso que várias travestis desenvolvem problemas urinários, infecções, perda da bexiga. Quando eu uso o banheiro dos shoppings, ainda vejo olhares femininos de estranheza”, completa.

 

Com informações de Cidadeverde.com



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