Da redação
Meio de vida para várias gerações, o trabalho de quebrar castanha está em declínio na localidade Mirolândia. O abandono da cultura do caju é um dos principais fatores desse problema. A equipe de reportagem do Ene1.com.br, foi conhecer de perto, a situação de quem ainda permanece no ramo.

A batida é leve. É preciso ter cuidado para não estragar a amêndoa. É aqui em baixo desta barraca ajeitada que esse moço simples tira o sustento da família há vinte e cinco anos. “Acordo às 4h e começo a lida. Não é fácil, mas é o que tenho”, diz seu Domingos

Seu Domingos, como é conhecido, começa a lida cedinho. Prepara o forno, o fogo tem que ser no ponto certo para não queimar a amêndoa. Ele acrescenta a castanha, mexe, coloca numa lata a primeira remessa. Depois penera, são quatro latas por dia do produto in natura.

“É todo um procedimento que tem que se fazer sempre que vou assar a castanha. Tudo tem que está no ponto certo para não queimar a emêndoa”, explica.


A dureza da lida diária deixa danos irreparáveis. Seu Domingos não tem as digitais das mãos. O problema acontece por conta do leite que sai da casca da castanha em contato direto com a pele.

“Sempre que preciso assinar algum papel, tenho que lavar as mãos e passar de três a cinco dias sem pegar na castanha, para poder colocar em algum documento”, lamenta.

A vida continua. Seu Domingos não descansa ao sabor do sol. Na sua barraca, além da castanha, ele vende fruta, doce e o mel. Aqui, na maioria das vezes, o cliente vem de outras freguesias.


“Realmente, quem mais me compra aqui são os caminhoneiros. Tenho até amigos, pois já são mais de vinte e cinco anos no ramo”, relata seu Domingos.
Este é Adilson, caminhoneiro do Rio Grande do Norte. Ele conta que sempre que passa pela cidade de Picos, dá uma paradinha na barraca do Seu Domingos.
“Compro aqui sempre que passo pela BR. Ele tem uma boa castanha e um bom mel”, reforça o caminhoneiro.

Além das dificuldades no trabalho com a amêndoa do cajú, seu Domingos conta que a matéria-prima vem de fora, o que encarece o produto final. O local, a Serra da Mirolândia, interior do município de Picos, já foi grande produtor do cajú e da castanha.

“A castanha bruta custa R$ 350,00 e vem de fora. Aqui na Mirolândia, praticamente ninguém planta o caju. Tudo fica mais caro para o consumidor”, comenta.

O experiente quebrador de castanha lamenta que a cultura, que ajudou a criar famílias, esteja em declínio na região. A profissão escolhida pelo experiente quebrador ainda não tem reconhecimento legal. Mas seu Domingos tem na ponta de língua, o que vem fazendo diariamente há mais de duas décadas.

“Na verdade, a palavra que usamos aqui é ‘quebrador de castanha’. Todo mundo só chama dessa forma”, explica.



