Da redação
O presidente do Corinthians não é favorável ao retorno do futebol brasileiro neste momento, em que muitos Estados têm dificuldade para achatar a curva dos casos de COVID-19 e lidam com números crescentes de mortos a cada dia. Em artigo publicado na versão online da “Folha de S.Paulo”, na última segunda-feira (25) e no site da agremiação nesta terça (26), Andrés Sanchez diz que “num esporte coletivo, não dá para jogar sozinho”. As informações são do ESPN.

No documento, o mandatário cita a Alemanha como exemplo a ser olhado pelos clubes e pelas federações locais, além da própria CBF, ao tratar da retomada das competições em solo nacional.
“Na Alemanha, houve diálogo intenso entre todos os agentes políticos e esportivos, e um princípio foi claro para a Bundesliga: o futebol não pode se antecipar ao controle da pandemia. Quando a sociedade confiou no sucesso do combate alinhado entre governo e estados alemães, a Bundesliga finalmente retomou seus jogos em sincronia, no último dia 16. Houve responsabilidade com seu produto, seus astros e seu público”, escreve o presidente corintiano.
Andrés elogia a Federação Paulista de Futebol (FPF) e a CBF pela conduta diante da pandemia. A primeira suspendeu todas as divisões de São Paulo após 17 de março e já avisou aos clubes locais que só retomará as competições com aval das autoridades sanitárias.
A CBF também adiou suas competições e não tem pressionado os clubes para uma retomada.
No entanto, equipes como Flamengo e Vasco desejam o retorno das competições. Os presidentes dessas agremiações chegaram a visitar o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), na última semana, para pedir apoio e até consultar sobre a possibilidade de o Estadual do Rio de Janeiro ser retomado com treinos e jogos em Brasília, cidade com menos casos de COVID-19 que a Cidade Maravilhosa.
A Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj) tem uma proposta de retomada do Campeonato Carioca a partir de 14 de junho, embora Botafogo e Fluminense sejam contrários.
“Se o combate ao vírus não tem alinhamentos entre os governos, no futebol as reações estão ainda mais fragmentadas. Com decisões facultadas aos Estaduais, criam-se ruídos. O futebol perde muito como produto quando transmite que, para a bola rolar, basta decidir qual clube está mais pronto, ou qual estado está mais disposto a riscos, enquanto se somam mais de mil óbitos por dia”, escreve Andrés.
“Em 2020, a Série A tem 20 clubes de nove estados, cada um com panoramas distintos da doença. Isso pede um trabalho mais coordenado entre governos, clubes e federações. Num esporte coletivo, não dá para jogar sozinho”, prossegue.
“Sem isso, qualquer retorno apenas adiará a próxima pausa forçada, em que os clubes vão, de novo, agonizar. Como negócio sustentável, o futebol só poderá voltar depois de uma articulação eficiente, focada tanto no bem-estar das pessoas quanto na segurança da Saúde nos estados envolvidos”, finaliza.
Veja a íntegra da carta de Andrés Sanchez
O papel do futebol na pandemia
“Depois de 23 mil mortes causadas pela Covid-19, todo debate é menor. Por isso, em nome do Corinthians, manifesto antes nossa solidariedade a cada brasileiro afetado por doença, luto, ou prejuízo profissional. Tudo isso importa.
E é legítimo que o futebol – como qualquer setor – procure saídas junto ao governo federal e a seus respectivos estados, prefeituras e federações, a fim de impedir um aprofundamento da crise na atividade. É preocupante, porém, que o Brasil viva um cenário muito diferente daqueles países que retomam suas ligas.
A queda de receitas já obrigou muitos clubes a executar cortes e demissões. O Corinthians tem adotado medidas de austeridade, como a redução temporária de salários e jornada, apoiada na MP 936. Fazemos e refazemos as contas diariamente, mas somos realistas: trata-se da pior epidemia no país nos últimos 100 anos, e nenhuma atividade econômica sairá dessa sem transformações inevitáveis.
No Corinthians, não será diferente. O que não muda é o nosso compromisso com um futebol forte como carro-chefe e a parte social como tradição, e é para isso que estamos trabalhando. Como também vemos o clube como um veículo capaz de impactar mais de 30 milhões de torcedores via mídias digitais, levamos informação útil e iniciativas solidárias, com o sonho de terminar a pandemia sem nenhum torcedor a menos.
Somos testemunhas dos elogiáveis esforços da CBF, da Federação Paulista de Futebol e de outros clubes. Mas é preciso repensar, de forma ampla, o papel do futebol e sua influência nesse jogo.
Na Alemanha, houve diálogo intenso entre todos os agentes políticos e esportivos, e um princípio foi claro para a Bundesliga: o futebol não pode se antecipar ao controle da pandemia. Quando a sociedade confiou no sucesso do combate alinhado entre governo e estados alemães, a Bundesliga finalmente retomou seus jogos em sincronia, no último dia 16. Houve responsabilidade com seu produto, seus astros e seu público.
O futebol brasileiro, porém, caminha para outra direção.
Se o combate ao vírus não tem alinhamentos entre os governos, no futebol as reações estão ainda mais fragmentadas. Com decisões facultadas aos Estaduais, criam-se ruídos. O futebol perde muito como produto quando transmite que, para a bola rolar, basta decidir qual clube está mais pronto, ou qual estado está mais disposto a riscos, enquanto se somam mais de mil óbitos por dia.
Em 2020, a Série A tem 20 clubes de nove estados, cada um com panoramas distintos da doença. Isso pede um trabalho mais coordenado entre governos, clubes e federações. Num esporte coletivo, não dá para jogar sozinho.
Sem isso, qualquer retorno apenas adiará a próxima pausa forçada, em que os clubes vão, de novo, agonizar. Como negócio sustentável, o futebol só poderá voltar depois de uma articulação eficiente, focada tanto no bem-estar das pessoas quanto na segurança da Saúde nos estados envolvidos.”
Andrés Sanchez, presidente do Corinthians



