Da redação
Na cidade de Canela (RS), vizinha de Gramado, mulheres indígenas da etnia Kaingang produziram o curta-metragem “Fuá, o Sonho”, viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG). A obra estreia no dia 16 de agosto, durante a 53ª edição do Festival de Cinema de Gramado, competindo na mostra gaúcha da categoria.

Origem do projeto
A ideia nasceu a partir do desejo da jovem Marciely Fuá Salvador, protagonista do filme. Em 2023, ela participou de uma sessão de cinema no Palácio dos Festivais, em Gramado, voltada a integrantes de comunidades indígenas. Na ocasião, manifestou o sonho de se ver em uma tela grande. “A gente ainda nem pensava em fazer o curta”, recorda a diretora não indígena Amallia Brandolff.
Enredo e significado
A trama acompanha uma menina Kaingang que, atormentada por pesadelos com uma planta misteriosa, parte em busca de uma liderança de seu povo. Sua missão é encontrar a cura para o problema de visão da mãe e compreender o significado dos sonhos.
Para a diretora indígena Viviane Jag Fej Farias, mãe de Fuá, a produção é também uma forma de preservar e transmitir saberes. “Eu convivi com essa história e não queria deixá-la apenas comigo, mas passá-la para as minhas filhas e para a minha sobrinha”, afirma. Ela vive com a família na aldeia Kógunh Mág, em Canela, onde o filme foi gravado.
Valorização da cultura Kaingang
Amallia destaca que a obra registra e resgata tradições ameaçadas pela ausência de demarcação de terras e pela insegurança nos territórios. “Esses saberes das plantas, da espiritualidade, da medicina, também vão se perdendo. O curta é um registro, mas também um resgate”, diz.
O roteiro contou com a colaboração da antropóloga Ana Elisa de Castro Farias, da liderança Kaingang Kujà Gah Té e de integrantes da comunidade. Cerca de 95% da equipe de produção é formada por mulheres.
Estreia e circulação
Gravado em Canela e Porto Alegre, “Fuá, o Sonho” terá estreia oficial no 53º Festival de Cinema de Gramado. “Muitas pessoas não sabem que tem uma aldeia aqui. Acredito que vai romper barreiras. O filme é uma forma de usarmos o audiovisual para aproximar as pessoas dessa cultura e obter mais respeito”, afirma Amallia.
Após a exibição no festival, o curta deverá participar de outros eventos cinematográficos no país e, no fim de setembro, será disponibilizado no YouTube.
Apoio da Lei Paulo Gustavo
O projeto foi contemplado com o primeiro lugar em edital municipal da LPG, recebendo R$ 33 mil para sua produção. Para Amallia, a lei foi decisiva. “Foi a partir da Lei Paulo Gustavo que as pessoas começaram a ver a possibilidade de executar seus trabalhos, aquilo que estava guardado. Isso é muito importante”, avalia.
A coordenadora do Escritório Estadual do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, Mariana Martinez, ressalta que o filme expressa a essência da lei. “Quando olhamos para as aldeias e para a cultura dos nossos povos originários, estamos olhando para a cultura viva, para quem sustenta a diversidade cultural desse país há séculos. O futuro é ancestral”, destaca.



