Da redação

Uma coalizão de grupos da sociedade civil estadunidense acendeu o alerta sobre uma prática alarmante de gigantes da inteligência artificial: a compra em massa, digitalização e subsequente destruição de livros físicos para treinar seus modelos de IA. A denúncia, que pede uma investigação federal à Comissão Federal de Comércio (FTC), levanta sérias preocupações sobre a perda de artefatos históricos, o bem público e os riscos de uma tentativa de monopolização do conhecimento.
Em uma carta formal à FTC, a coalizão, liderada pelo Demand Progress Education Fund, aponta a Anthropic, criadora do Claude e uma das principais empresas de inteligência artificial, como um dos atores centrais dessa estratégia. Segundo o documento da coalizão, a Anthropic adquiriu milhões de livros impressos, digitalizado-os e descartando depois os originais físicos. “Esse processo deixa apenas o texto digitalizado no banco de dados proprietário da empresa para uso no treinamento de seus grandes modelos de linguagem, que estão por trás de produtos como o Claude”, afirma a carta.
Um memorando interno da Anthropic, divulgado em um processo judicial por violação de direitos autorais, daria pistas cobre como é a conduta da Big Tech. Intitulado “Projeto Panamá”, o documento descreve um esforço para “digitalizar de forma destrutiva todos os livros do mundo”. O memorando revela ainda a intenção de sigilo da empresa. “Usamos um ‘nome de código informal’ porque não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso”, e orienta funcionários a evitar discussões públicas sobre o tema.
Acumular e destruir
A gigante da IA teria inclusive considerado abordar bibliotecas estadunidenses, como a Biblioteca Pública de Nova York, para sua campanha. Documentos judiciais detalham o uso de uma “máquina de corte hidráulica” para “cortar cuidadosamente” os livros antes da digitalização, que seriam posteriormente enviados para reciclagem. A Amazon também estaria envolvida em uma operação similar, onde funcionários “cortam as lombadas para digitalizar os livros mais rapidamente”.
Segunda a coalizão, essa prática, apelidada de “acumular e destruir”, visa “construir e consolidar seu domínio de mercado” ao “monopolizar os insumos essenciais para o desenvolvimento da IA”. A preocupação é que a indústria da IA esteja criando um futuro onde apenas os detentores mais ricos poderão construir modelos de alta qualidade, tornando-se os únicos proprietários das obras escritas da humanidade, após terem destruído os originais.
A assessora especial do Demand Progress Education Fund, Kate Oh, reforça a necessidade de investigação, como pontua o Common Dreams. “A maneira secreta e imprudente com que grandes empresas de IA, como a Anthropic e a Amazon, estão agindo demonstra que há algo muito suspeito que a FTC precisa investigar”. O documento solicita que a FTC determine se essa prática impede o acesso de desenvolvedores de IA concorrentes e do público a um insumo escasso e não reproduzível, e se constitui um método desleal de concorrência. Revista Forum.



